Cenas da vida
A sombra da luz viva e outros fragmentos
Cena 1: Onde está sua mãe?
— Cadê sua mãe?
— Papai disse que ela está no hospital.
— Tem mais de mês que não a vejo.
— Disse que ela precisa ficar lá.
— Tá com o quê?
— Toda vez que vou procurar ela no quarto, Dita diz que mamãe ainda está no hospital; uma vez achei que ouvi Dita dizendo que ela não volta mais.
— Tá muito doente?
— Eu só queria ficar um pouquinho com ela. Por isso vou todo dia no quarto, procuro, deito um pouquinho na cama.
— Quem sabe ela não volta logo?
— O travesseiro ainda está com o cheirinho dela.
— Dá saudade, né?
— Muita. O papai também está com muita saudade. Hoje acordou chorando.
— Você já foi ao hospital?
— Ela mandou um vídeo dizendo para eu ser boazinha.
— Seu pai vai te levar lá amanhã?
— Acho que não. Disse que mamãe está dormindo há uma semana, que não vou conseguir falar direito com ela.
— Ah, tá bom. Não fica triste, não. Daqui a pouco ela volta.
— Vamos, Ana!
— Tenho que ir, Terê, Dita está chamando.
— Dê lembranças à sua mãe.
— Dou sim, quando ela voltar.
Cena 2: A sombra da luz viva
Subiu a escadaria da igreja com dificuldade, ofegante, o coração pesado. A missa passou em alguns minutos cochilados. O padre atendeu mais três pessoas. A fila se formou e se dissolveu. Ela insistiu.
— Quais são seus pecados, minha filha?
— Olha, padre, eu já não tenho acreditado muito em Deus. As coisas andam tão difíceis. Eu rezo, nada acontece. Não vejo luz.
O padre disse quase o mesmo de sempre, deu-lhe a absolvição e a dispensou.
Desceu as escadarias. A rua estava apinhada. O sinal abriu duas vezes e ela não conseguiu atravessar. Veio um menino, passou os braços em volta de seus ombros com paciência, segurou-lhe as muletas e a acompanhou até a outra calçada.
A noite não demoraria a cair sobre a cidade. Observou que o sol iluminava apenas os cimos das montanhas. Lembrou-se da avó: o sol está indo iluminar outras cidades, mas amanhã volta para cá.
Continuou caminhando sozinha na quase escuridão das avenidas.
Cena 3: Pai
Chegou à Vila Mimosa, procurou Rosa.
Ele quase sempre a procurava.
— Pai. Me diga, pai.
— Sim, filhinha. Vamos?
— Claro. Já fico te esperando na segunda.
— Hoje vai ter que ser rápido.
— Por que rápido? Não é pra ser assim...
—Ora, tenho minha vida.
— Sabe, pai...
— O que é?
— Hoje, não vou te cobrar. Tô gostando de você.
Ele fechou o vidro, acelerou o carro e foi embora.
Cena 4: Escurinho
Lucas nasceu puxado para o pai, fechado, mais escuro que eu. O doutor pediu que não o levássemos à Igreja antes de um mês, batizado nem pensar antes dos três.
Teimosa que sou, levei o menino com duas semanas.
Na porta da Igreja, a congregada deu as boas vindas, que bom ter você de volta, me deixa ver seu neném.
Abaixei o véu e a cobertinha, Lucas apertou os olhinhos por causa da luz.
A congregada me deu um terço e convidou para entrar:
— Ele é escurinho, né? Não se preocupe não, depois de uns dois, três meses ele enclarece.
Cena 5: A poesia é inútil
A poesia é inútil.
Não aplacou a saudade,
Não trouxe a mãe de volta.
Não operou o milagre.
Só espalhou pelo ar da casa
Inenarráveis restos de beleza.
Como o pó sobre os móveis
Depõe a sombra da luz que vive.
E assim fizemos nossa cama.
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