Nostalgia do tédio?
Sempre senti sede de sentido, mas nunca falta de sentido
Eu sinceramente não entendo a nostalgia do tédio alarmada pelas redes sociais, supostamente causada pela hiperconexão.
Em meu mundo infantil e adolescente não havia tédio. Ao menos não me recordo de haver. Pelo contrário, havia tanta coisa a fazer, tanta música para escutar, filmes para assistir, livros para ler, bebidas para saborear, gostos a serem sentidos, mistérios a serem explorados, o mundo inteiro para ser conhecido — Londres, Paris, Nova Iorque, Atenas, Jerusalém, Roma, Tóquio. Ainda não li todos os diálogos platônicos, as peças todas de Shakespeare, os romances de Dostoiévski. Não li nem o começo de tudo o que gostaria e precisaria ler. Escrevi muito pouco do que me será permitido escrever. Não utilizei nem um terço da energia amorosa que foi depositada em minhas veias. O tédio não é possível. Nunca foi. Na infância, na adolescência, hoje. Não sei quando será.
Não se troca a conexão pela vida real para se sentir tédio. Se troca a conexão pela contemplação das garças voltando para as suas árvores-casas às quatro e meia da tarde. Hoje elas cruzaram o céu sem nuvens tão organizadas e voando num ritmo tão harmonioso que parecia uma espécie de balé. O espetáculo durou menos de um minuto, mas bastou para fazer a alma suspirar. Como na primeira vez que escutei “Bells of St. Augustine”, de Burt Bacharach, numa sacada, olhando para este mesmo céu, arrebatado pela beleza, enquanto o mundo desmoronava. Bacharach ainda estava vivo e nada podia impedir que a beleza habitasse o cosmos, a despeito de todas as nossas mazelas.
O tédio deve ser ficar conectado o dia inteiro, na mesma IA, nas mesmas plataformas, redes, aplicativos, rolando os mesmos vídeos, jogando os mesmos jogos, vendo Netflix como compania, deixando que o scrolling instale um vácuo mental que impede o pensamento, a solidão, a lentidão, o silêncio interior, a criatividade e a contemplação.
Aqui fora o tédio não existe. O Boards of Canadá lançou um álbum belíssimo, Inferno, depois de 13 anos. Há um movimento de procura de música atonal em torno do Angine de Poitrine. O Durutti Column gravou depois de muito tempo. Estou deslumbrado com os romances de Autran Dourado, os contos de Denis Johnson, com a coragem de Leão XIV escrevendo a Magnifica Humanitas, o Cântico Espiritual de João da Cruz… Estou ansioso por ter O Pão dos Anjos, de Patti Smith, nas mãos. Ontem perdi a hora e fiquei até uma da manhã assistindo essa obra-prima da complexidade das relações humanas que é a série Half Man, de Richard Gadd. E é preciso arrumar tempo para isso tudo com o mínimo diário de oito horas de trabalho, família, cuidado com os filhos, etc. Onde o tédio entraria aqui?
Talvez eu não compreenda o que é esse tédio do qual tantos estão sentindo a falta. Já perdi a conta das vezes em que reassisti a cena de “O Espelho” de Tarkowski em que a mãe de Alexei está sentada sobre a cerca, no campo, e o encontro dela com o médico que passa pela estrada. São tantas camadas, detalhes e beleza em uma cena de um filme de Tarkowski. Sei que morrerei sem ter lido muitos livros que me teriam salvo a vida. Tantos volumes que ficarão intocados, empoeirados nas minhas estantes, que, infelizmente, não serão lidos por meus filhos (se bem que meu filho está lendo Salinger, e achei Clarice e Kafka na cabeceira da minha filha), por alguém da minha família ou mesmo serão doados para que alguma mente excepcional tenha acesso a eles. Porque os compro, os ajunto, porque faço questão de tê-los junto a mim? Pela simples possibilidade de algum dia tê-los à mão e conviver com esses tantos personagens como convivi com Hans Castorp na Montanha Mágica por algumas semanas (que na verdade foram cerca de sete anos, tempo suficiente para que o tempo deixe de significar a mesma coisa para ele, e para nós, leitores). Pela simples possibilidade de oferecer essa estadia na Montanha Mágica a algum personagem do futuro.
Enquanto estiver vivo, sempre vou alimentar a esperança de que um milagre caia do céu.
E eles caem do céu a conta gotas, muitas vezes quase imperceptíveis, outras vezes mais vistosos, belos, diante de nossos narizes. Mas são raros aqueles que se deixam classificar como milagres propriamente ditos, que parecem uma irrupção sobrenatural nos dias que correm aparentemente sem nada de extraordinário. O sobrenatural normalmente se esconde no subterrâneo dos dias. Os milagres são raros porque o estilo de Deus é a humildade. Se esconde porque quer ser encontrado. A graça escondida é o motor da contemplação. É o que perdemos quando a hiperconexão se instala no organismo mental e joga o espírito para escanteio.
Sempre sonho com bibliotecas e livrarias. Eu meio cego tentando adivinhar o título dos volumes nas lombadas. Eu querendo pegar todos os livros para mim, querendo levar tudo para casa. Sonhos maravilhosos com bibliotecas borgeanas, livrarias labirínticas. Minha mãe, minhas professoras, meus amigos, minha mulher dizendo, vamos embora, Sérgio, e eu ali, querendo descobrir mais livros, desejando ficar, nunca mais sair daquele mar de livros. Me afogar, sem tábua de salvação.
Alguém diz que as estantes estão cheias e não conseguiremos ler nem o que já está em nossos depósitos; “por mim não se publicaria mais livros novos”, conclui. Como? Será que você não sabe que a imaginação e o coração humano são irrefreáveis? Uma tradição que não reverbera em novas obras está morta. Que sentido teria manter a brasa ardendo sob as cinzas se os homens só buscassem as cinzas de agora em diante?
Sempre senti sede de sentido, mas nunca falta de sentido. Por isso me impressionou tanto quando ouvi o Olavo dizer que o universo é um tecido semântico. Tudo é símbolo, disse Pessoa. Mas alguém disse que não é preciso de simbolismo para entender a Bíblia. Se você não compreender ao menos um pouquinho o significado de símbolos como a aliança ou o Cordeiro, definitivamente você não entenderá a Bíblia, ou entenderá bem menos do que ela significa.
O universo é um lugar belíssimo, misterioso e perigoso. É curioso, nunca fui a nenhuma das cidades emblemáticas que citei acima, e, sinceramente, é bem provável que nunca vá a nenhuma delas. Nem ao Japão idílico e melancólico de Miyazaki ou a Berlim de Bowie, Eno e Iggy Pop. Mas continua deslumbrante para mim o mistério de essas cidades existirem no mundo, tudo o que aconteceu em sua história e ainda acontece em suas ruas, continua me assombrando pela mera hipótese de um dia contemplá-las fora da minha imaginação. Ao vivo, reais, concretas. Pedras que carregam significados.
Cristo falou de tomar a sua cruz e de beber o cálice. Acolher o mistério do sofrimento e sorver o cálice da vida da borda até o fundo, com tudo o que ele tem, do fel da amargura ao contentamento suave da alegria. Erguer, contemplar e beber do cálice da vida e tomar sobre si a cruz da vocação, que não é outra coisa senão descobrir a maneira certa de sofrer.


Tem razão em dizer que tédio mesmo é estar vendo vídeos curtos infinitos. É um tipo de tédio que nunca havia experimentado antes, mesmo nos momentos com menos coisas por fazer, minha mente estava o tempo todo criando histórias.
O que eu já, infelizmente, senti foi a falta de sentido. Redescobri-a na escrita, uma paixão antiga, que de certa forma me salvou de ver a vida com pessimismo, algo a que eu estava me acostumando.
Textos como este seu são mais uma luz de sentido, de esperança na minha vida. Não consigo explicar em poucas palavras o quanto me senti identificada com as sensações, lembrando-me de uma versão mais otimista e alegre de mim mesma. Tenho pensado nisso ultimamente, que Deus está escondido nas pequenas coisas e principalmente, que está presente na alegria.
Muito obrigada pelo texto!
Eu não o chamaria para sair de seu sonho no imenso mar das livrarias, pelo contrário, ficaria ali, sem querer sair...Como deixar ali, sozinhos, aqueles livros todos que talvez não conseguíssemos ler, mas ao menos estariam para sempre a nosso alcance? Ao menos de fome não morreríamos nunca...