Opus
O piano de Sakamoto e minhas dores de sexta-feira
Sexta-feira, 15 de maio de 2026.
Hoje faz onze anos que meu pai partiu desta terra. Leio o evangelho do dia; fala que a minha tristeza há de se transformar em alegria. Não apenas que a tristeza será substituída por alegria. O grego original indica transformação (genēsetai): a própria tristeza torna-se matéria de alegria.
Começo a rezar os mistérios dolorosos. O silêncio me incomoda. O tinnitus no ouvido esquerdo é uma via para a dispersão. Coloco para tocar Opus, de Ryuichi Sakamoto. Tem sido um companheiro nas minhas noites insones e nas orações. Sakamoto é um amigo para partilhar as dores de Jesus, as minhas e as dele mesmo.
Opus é o testamento final de Sakamoto: seu último concerto, gravado meses antes de sua morte, enquanto lutava contra o câncer. Registrado sozinho, sem público, em um teatro vazio de Tóquio, funciona como uma despedida radicalmente despojada — só ele, o piano e peças escolhidas de toda a sua trajetória, de Merry Christmas, Mr. Lawrence a obras mais recentes e abstratas. Sem orquestra, efeitos ou produção expansiva, o álbum expõe sua fragilidade física e profundidade emocional: ouvem-se respiração, esforço, hesitações, ruídos das teclas e pedais, a reverberação natural da sala e silêncios carregados. Sua intensidade não vem do grandioso, mas da contenção — uma autobiografia musical e uma despedida consciente, sem drama ou discurso, apenas música.
Sakamoto tem uma carreira extensa. Foi membro da banda eletrônica Yellow Magic Orchestra, transitou por diversos estilos, tocou com meio mundo (inclusive com Iggy Pop e Caetano Veloso) e compôs diversas trilhas sonoras. O Sakamoto que mais amo é o pianista, que conheci durante a pandemia, fazendo lives para trazer algum conforto às pessoas confinadas em suas casas. A apresentação mais conhecida dessa época foi Playing the Piano 2022, um concerto filmado e transmitido globalmente em dezembro de 2022, já durante seu tratamento contra o câncer. Nesse recital, gravado previamente (não ao vivo no sentido tradicional), que virou disco, ele toca sozinho ao piano uma seleção de obras de toda a carreira — e esse projeto acabou sendo uma espécie de precursor direto de Opus.
Essa fase final de Sakamoto foi ensaiada em pelo menos três belíssimos álbuns: async (2017), que abre com a extraordinária “andata”, iniciada como uma peça de piano e gradualmente incorporando os elementos que caracterizam o disco — texturas ambientais, ruídos e uma atmosfera contemplativa e melancólica; BTTB (1998) — Back to the Basics — que marcou um retorno mais explícito de Sakamoto ao piano solo, depois de muitos anos explorando eletrônica, ambient, trilhas e música experimental, e contém uma das mais belas peças de piano dos nossos tempos: “aqua”; e 12 (2023), em que alterna registros de piano e ambient. Soma-se a isso a trilha sonora do maravilhoso filme Monster (2023), de Hirokazu Kore-eda. Tudo bonito demais. O Japão é um universo. A obra de Sakamoto é outro universo inesgotável dentro do Japão. Sorte a nossa.
A IA poderá criar obras incrivelmente parecidas com as que os gênios criaram, mas jamais criará um disco como Opus ou Astral Weeks, de Van Morrison, porque a IA não tem alma, e esses discos são pedaços de alma registrados em fonogramas. A IA não poderá jamais escrever um Ghosteen ou um Wild God, porque ela nunca perdeu um filho e teve que reconstruir a própria vida a partir do amor, da criatividade e da arte.
Alguns filósofos dizem que o que distingue o ser humano dos animais é a consciência da morte; outros, que é a capacidade de sorrir, amar ou a faculdade de perceber a própria consciência. Os cristãos e os judeus veem, segundo o relato do livro do Gênesis, a singularidade do homem no fato de ter sido criado à imagem e semelhança de Deus. Para Tomás de Aquino, o homem é imagem de Deus porque possui inteligência para conhecer a verdade e vontade para amar e escolher o bem; é dessa união que nasce o dom da liberdade.
A psicanálise não bate de frente com a religião, nem com a ciência ou a filosofia. Adélia Prado ensinou: isso de dizer que ciência é uma coisa e religião é outra é pura balela. Só há uma coisa no mundo; tudo é uma unidade. E essa é a unidade humana, sofredora. É só você olhar a história do mundo.
Tudo isso — alma, consciência de morte, sorrir, amar, inteligência, vontade, liberdade — passa tão longe do que uma IA é capaz de realizar que não é difícil imaginar que ela jamais criará um Opus ou um A Love Supreme.
A IA também não é capaz de rezar. Rezar ao som de Opus. Conectar as dores de Sakamoto com a saudade que tenho do meu pai nesta sexta-feira e a paixão de Cristo. Meditar o mistério. Pobre IA.
Um pai-nosso pela alma de meu pai.
E um pela alma de Ryuichi Sakamoto.


Sakamoto, nos seus últimos anos de vida, também participou de uma música do Suga (integrante do BTS).
A música, que se apresente como um refúgio aos artistas cansados, une uma lenda (Sakamoto), um astro do pop (o próprio Suga) e um cantor que ainda está no começo da carreira ( Woosung, integrante do The Rose).
Nela vemos mais uma coisa que a IA não pode fazer: sonhar.
https://www.youtube.com/watch?v=zCNqdvR9e_w
Que seu pai esteja com Deus, Sérgio. Obrigada por esse acalento em forma de texto!