Polaramine
Ele tinha treze anos, um livro debaixo do braço e uma quinta-feira inteira pela frente.
Devia ser 1986 ou 87. Fernando fora para a escola com um exemplar de Vidas Sem Rumo debaixo do braço, emprestado pela professora de português, Vera. Antes da aula começar, ele folheou o pequeno volume e leu algumas poucas páginas. Fazia um frio excepcional naquele inverno, a geada deixava as árvores esbranquiçadas. Fernando observava a paisagem pela janela lateral enquanto a aula de matemática se desenrolava. Tinha treze anos. Carregava livros, discos e fitas VHS como quem carrega um segredo. A professora Vera logo notara o seu gosto e passou a trazer livros para ele. Ele já havia lido Feliz Ano Velho e gostado muito. O seu preferido era O Apanhador no Campo de Centeio. E o disco dos Beatles favorito era Abbey Road. Something in the way she moves…
Foi então que a coordenadora de turno entrou no intervalo entre as aulas e apresentou duas meninas vestidas de calças jeans e camiseta branca para convidar os alunos para o espetáculo que misturava circo com teatro mambembe. Ela é a cara da Mary Stuart Masterson. Something in the way she moves attracts me… Uma Mary Stuart Masterson ruiva, pensou, sorrindo.
- Ei, você, ela apontou para ele, venha cá.
Ele levantou-se imediatamente e foi até ela.
- Me ajude por favor a distribuir esses panfletos. Tá tudo explicadinho aí o que irá acontecer no espetáculo.
Ela tinha um perfume maravilhoso. O perfume impregnou os panfletos e ficou nas mãos de Fernando depois de distribuí-los. Ela sorriu e agradeceu. Somewhere in her smile she knows…
- Qual o seu nome?
- Fernando.
- Quantos anos você tem?
- Vou fazer quatorze.
- Na hora do recreio vamos fazer uma pequena apresentação para dar um gostinho.
Ele ficou embasbacado. A apresentação fora linda e a ruivinha, com roupa de palhaço e maquiagem, em cima das pernas de pau, lhe tirara do sério. O perfume tomara todo o pátio, ele espalhou panfletos e passou apenas a sonhar com o espetáculo. Para ele não houve mais aula depois do recreio. Não conseguia se concentrar. Ele pensava na ruivinha, lia um trecho das aventuras de Ponyboy Curtis e companhia e sonhava.
Voou para casa de bicicleta deixando os colegas para trás, como se a velocidade pudesse alcançar a quinta-feira antes que ela chegasse. Engoliu a comida e se trancou no quarto com seus livros e Hejira, de Joni Mitchell, num volume ensurdecedor. Esse disco vai furar, Fernando, é o dia inteiro ouvindo isso, bradou a mãe. os dias passavam rápido — manhãs corridas, tardes com Hejira. Tinha hora que pensava no rosto delicado da ruivinha ao som de Amelia, ou nela vestida de palhacinha sobre as pernas de pau, deixando seu perfume pelo pátio, com Blue Motel Room.
Na quarta, nas duas aulas finais, de Educação Física, enquanto os colegas batiam uma pelada e ele lia em cima do muro da quadra, as duas meninas reapareceram para reforçar o convite. Quando as avistou, o coração parecia que ia sair pela boca. Elas se aproximaram, a ruivinha, na perna de pau, ficou quase cara a cara com ele, em cima do muro. Seu perfume apagara do ar o odor acre dos pinheiros.
- O que você está lendo?
- The Outsiders, mostrando a capa.
- É lindo. Li ano passado.
Ela era mais velha. Devia ter dezessete anos.
- Sim, já estou relendo. Não consigo parar de reler a parte em que eles ficamscondidos na igreja abandonada.
- Essa parte é linda mesmo.
- Esse poema é bonito demais.
Ele quase não conseguia acreditar que ia ler aquele poema para a ruivinha.
“O primeiro verde da natureza é dourado,
Para ela, o tom mais difícil de fixar.
Sua primeira folha é uma flor,
Mas só durante uma hora.
Depois folha se rende a folha.
Assim o Paraíso afundou na dor,
Assim a aurora se transforma em dia.
Nada que é dourado permanece.”
- Preciso ler esse livro de novo.
Fernando fez silêncio e ficou olhando para a menina, como se estivesse com a cabeça ausente — ou tão presente que não era capaz de dar conta de si.
- Oie! Tem alguém aí dentro?
- Desculpa…
- Você vai, não é?
Ela falava “não é” e não “né”, como nós. Era bonito aquele jeito de falar. De onde será que ela era?
- Sim, eu vou, eu adoro teatro.
- Olha, não é bem teatro. Não é nem um espetáculo propriamente dito. É uma apresentação mambembe com um pouquinho de teatro. Você vai gostar.
- Sim, sim. Com certeza.
- Espero você lá.
Enfim, chegara a quinta-feira, o número seria à quatro da tarde. Fernando acordou espirrando e tossindo muito. Colocou na mochila Encontro Marcado, que começara a ler na noite anterior. Mas não conseguia deixar de levar também o exemplar de The Outsiders, já surradinho de tanto ser carregado pra lá e pra cá. Na sala de aula, o pó de giz fez com que espirrasse ainda mais. Começou a se sentir congestionado. Pediu um remédio, a direção da Escola ligou para a mãe, que informou que tinha deixado uma cartela na mochila. Correu para o bebedouro com o comprimidinho vermelho nas mãos e o engoliu com um pouco de água. Voltou para a sala e dormiu na carteira. A professora já estava acostumada com dias assim, que começavam com espirros e terminavam com Fernando desmaiado.
Em casa, mal almoçou, entrou no quarto, colocou Hejira, não leu nem meia página de Sabino e adormeceu. E sonhou. Sonhou com a ruivinha vestida de palhaço em cima das pernas de pau. Com seu rosto muito próximo ao dela em cima do muro. Com Hejira ressoando pelos ares junto com aquele perfume que preenchia o ambiente. Com a igreja abandonada, o nascer do sol, e, em vez de Ponyboy, ele e a ruivinha recitando Nada que é dourado permanece no frescor da colina.
Quando acordou a noite já descia sobre a cidade. Perguntou à mãe — que horas? Quase seis... Perdera o espetáculo! Montou na bicicleta, pedalou correndo até a praça e só havia o repuxo, as carpas alaranjadas nadando silenciosamente, e os estudantes já se dirigindo para o turno da noite. O vento soprava, esquecera de trazer o casaco. Nenhum sinal do grupo. O espetáculo terminara. Haveria outro? Alguém sabia?
No dia seguinte, na escola, ninguém parecia saber de nada. Do nome da trupe, quem promovera, quem eram aquelas pessoas, se haviam ido embora, se se apresentariam em outras cidades da região. Os meninos não se interessaram, as meninas acharam bacana, nada mais que isso.
Nunca mais voltaram. Fernando nunca mais viu uma trupe mambembe. A ruivinha partira sem que sequer soubesse seu nome. Fernando se lamentou, andou cabisbaixo por uma semana, trocou Hejira por Blue, mas logo voltou à rotina.
***
Não sei por que, depois de quarenta anos, continuo lembrando dessas coisas. Mas foi o melhor que pude fazer quando me pediram uma história de coração partido dos anos 80.


Sua história melhorou o meu dia. Essa é a literatura que consola. Obrigado, Sergio.
O desespero dos corações partidos dos anos 80 é que não tinha becape, informação em tempo real e nem trocar arroba em rede social. A decepção tinha que ser engolida a contragosto mesmo. Igual escutar uma musica na radio e nao poder dar um shazam para descobrir o que era aquilo.